O Rio Grande do Norte é um Estado de divisas e mares vulneráveis ao
tráfico de drogas. Sem infraestrutura adequada à fiscalização de
embarcações e veículos, em decorrência da falta de barreiras fixas em
terra ou nos portos estaduais, a entrada de entorpecentes no solo
potiguar é uma operação de risco baixo para os experientes traficantes.
Nos últimos anos, o número de apreensões de drogas caiu a índices
superiores a 70%, sem nenhuma explicação técnica da Polícia Federal.
Divisas e mares vulneráveis ao tráfico
Ricardo Araújo - Repórter
Estrategicamente
posicionado na “esquina” do Brasil, no ponto mais próximo dos
continentes europeu e africano, o Rio Grande do Norte é uma rota
potencial para o tráfico internacional de drogas, afirma a Polícia
Federal. Entretanto, não dispõe de uma infraestrutura adequada para a
fiscalização ostensiva de rodovias e hidrovias e o declínio no número de
apreensões de drogas feitas pela Polícia Federal no estado indicam a
fragilidade dos órgãos de segurança nas ações de combate ao tráfico de
entorpecentes. Entre os anos de 2011 e 2012, o total de apreensões de
entorpecentes localmente caiu a índices de 72,83% no caso da cocaína e
zerou, em relação ao LSD.
A Polícia Federal não sabe explicar,
tecnicamente, os motivos da diferença dos números, apontando que nenhum
estudo foi elaborado para identificar os reais motivos desta diminuição.
O órgão ressaltou, em contrapartida, que o Rio Grande do Norte é um
estado “muito vulnerável” à atuação das quadrilhas de tráfico
internacional de drogas, que utilizam a malha aérea e marítima local
como modal de escoamento da cocaína, que é consumida, principalmente, em
países europeus. Atualmente, as argumentações do órgão de segurança
federal relacionados à redução do montante apreendido, são baseadas em
“conjecturas e possibilidades”, que vão desde a mudança de rota do
tráfico, migração e/ou prisão dos traficantes.
Cedida/PF
Há casos, e não são raros, de passageiros que tentam embarcar com drogas envoltas na cintura
“A
Polícia Federal ainda não parou para analisar a oscilação dos números
entre um ano e outro. Não temos um estudo a respeito disso”, reconhece o
titular da Delegacia Regional de Investigação e Combate ao Crime
Organizado da Polícia Federal no RN, Rubens França. No estado potiguar, a
Polícia Federal dispõe de duas bases de operação, uma em Natal e outra
em Mossoró, que atuam, prioritariamente, na área de inteligência. O
Posto Avançado que existia em Caicó foi fechado e nem mesmo o Porto de
Natal dispõe de uma Delegacia de Polícia Marítima que, em estados com
fronteiras continentais, atua no patrulhamento costeiro e fiscalização
de embarcações turísticas e cargueiras.
Mesmo sem restrição de
atuação geográfica, atualmente o trabalho da Polícia Federal no combate
ao tráfico de drogas no estado é ininterrupto no Aeroporto Internacional
Augusto Severo, em Parnamirim. É lá onde ocorre o maior número de
apreensões de entorpecentes em pequenas quantidades, sendo o principal
produto, a cocaína, que é encontrada em bagagens, calçados, aparelhos
eletrônicos ou até mesmo coladas ao corpo ou impregnadas nas roupas dos
transportadores, conhecidos como “mulas”. No Porto de Natal, conforme
exposto pelo delegado federal Rubens França, ocorrem “operações
pontuais”, assim como nas divisas do estado potiguar com outras unidades
federativas.
Equipamentos de segurança são falhos
A
concentração de agentes da Polícia Federal no Aeroporto Internacional
Augusto Severo, de acordo com o delegado Rubens França, se dá por dois
motivos: pela proximidade do estado potiguar com os continentes europeu e
africano, consumidores em potencial da cocaína traficada a partir dos
aeroportos do Brasil e pelo advento de eventos com grande concentração
de público, como a Copa do Mundo de 2014. Atualmente, o terminal
aeroviário potiguar conta com três agentes federais trabalhando em
regime de plantão 24 horas.
Entretanto, de acordo com dados da
PF, o incremento no número de agentes no aeroporto não foi suficiente
para dirimir problemas antigos relacionados ao combate ao tráfico de
drogas. Isto porque a União investe pouco em equipamentos de segurança e
identificação de produtos com composição orgânica dentro de bagagens e
até mesmo nas roupas ou coladas ao corpo dos passageiros que traficam
entorpecentes. Há casos, e não são raros, de passageiros que tentam
embarcar em voos internacionais e são pegos com drogas, geralmente
cocaína, envoltas na cintura e nas pernas, cobertas por camadas de fita
adesiva. As apreensões, via de regra, ocorrem por causa do comportamento
suspeito dos traficantes.
Cedida/PF
Os aparelhos de segurança são capazes de identificar entorpecentes em bagagens despachadas. Mas algumas passam despercebidas
O
delegado Rubens França explicou que esta tentativa de transporte ilegal
ocorre devido ao raio-x do portão de embarque do Aeroporto
Internacional Augusto Severo não ser sensível a itens de baixa
densidade, como a cocaína. Somente o aparelho disponível para a
fiscalização de malas e bagagens que são despachadas é capaz de
identificar a presença de entorpecentes. Entretanto, algumas malas
passam despercebidas, em decorrência do grande volume e do número
reduzido de agentes para acompanhar a passagem dos objetos pelo
aparelho.
A expectativa da PF é de que, em breve, todas as
bagagens sejam avaliadas com o uso de novos equipamentos de segurança e
fiscalização. Não foram informados prazos, contudo. A PF defende
maiores investimentos e melhorias da infraestrutura. “Natal deveria ter
uma estrutura melhor não só da Polícia Federal, mas de todos os órgãos
de fiscalização marítima e terrestre”, defende o delegado.
Em dois anos, apreensão de maconha cai 44%
Entre
os anos de 2011 e 2012, o percentual de maconha apreendida no Estado
potiguar sofreu uma queda de 44,43%. Dos 871 quilos retirados de
circulação em 2011, o total subtraído no ano passado foi de 484 quilos.
Em relação ao crack, o montante de pedras retiradas da posse dos
traficantes foi de 255,7 quilos em 2011 contra 129,7 quilos no ano
passado.
Em
relação às drogas como ecstasy e LSD, nenhum comprimido ou microponto,
respectivamente, foi retirado de circulação no Rio Grande do Norte em
2012. O LSD (Ácido Lisérgico Dietilamida) ou 'Doce' é um psicodélico e
alucinógeno feito a partir de um fungo. Vem em quadrados pequenos de
papel ou cartolina absorvente (cartelas).
Conforme dados da
Polícia Federal, a entrada de drogas no estado potiguar se dá, via de
regra, através do transporte terrestre. Os maiores fornecedores de
maconha e crack para os traficantes potiguares são os estados do Ceará e
Pernambuco.
A cocaína, por sua vez, é traficada de países como
Bolívia e Peru e distribuídas pelo Brasil através de uma complexa e
ampla teia de traficantes que comandam o comércio até mesmo de dentro
dos presídios. Informações divulgadas pela Agência Brasil de
Comunicação, na semana passada, destacam que “1% da droga que entra no
Brasil é produzida na Bolívia, o restante é procedente da Colômbia e do
Peru”.
A Secretaria de Estado da Segurança Pública e da Defesa
Social (Sesed), em decorrência do feriado e o ponto facultativo
decretado na sexta-feira passada, não informou o montante de drogas
apreendidos entre os anos de 2010 e 2012.
Tribuna do Norte